Editorial

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DESOPRESSORES

Quem reprime, ou se reprime, veda a alguém ou a si próprio possibilidades de caminhos. Ergue barreiras e censuras, usa de violência para as recalcar. E nos regimes políticos a repressão não é essencialmente diferente disto. Para o bem e para o mal, diz: não podes e não vais mesmo por esse caminho. Agora, se quisermos falar com exactidão, os tempos que vivemos não abusam da repressão, pelo menos assim entendida. Mas, com a mesma exactidão, não falta evidência de que os tempos que vivemos são opressivos. Quem oprime, ou se oprime, não se propõe barrar a passagem a ninguém, nem a si próprio. Se a repressão não visa os caminhos possíveis mas quem por eles quer passar, a opressão, na verdade, não precisa de visar directamente ninguém, porque, de antemão, procede à implosão de todos os caminhos possíveis. Num certo sentido, a opressão até torna escusado qualquer abuso de repressão. Simplesmente deixa de haver caminho algum para a esmagadora parte da população. E isto é o mesmo que nos esmagar comunitariamente. Portanto, isto de dizer que vivemos tempos opressivos não é um eufemismo, bem pelo contrário: o reprimido vê barrada a passagem para caminhos que, até por isso, lhe sobreviverão muito certamente; mas o oprimido, esse, vê os caminhos desaparecerem na sua frente, vendo-se, então, obrigado a prosseguir por um tempo em que é ele quem sobrevive aos caminhos. Este oprimido não tem um repressor a quem possa olhar nos olhos, passa é a existir com a mesma dificuldade de quem se sente asfixiar, sujeitado a uma violência sem sujeito, mas nem por isso sem autores. Por isso, é mesmo preciso reencontrar caminhos e abri-los também, claro. Ou como tão bem disse Alexandre O’Neill – em versos visuais que mostram tudo quanto dizem –, a réplica à opressão é o desenho letrado de um novo caminho: opção. Escrevê-lo, inscrevê-lo, sulcá-lo é o exercício desopressor do intelectual.

opressão

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Max Beckmann, O artista na sociedade, 1922

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