Da violência da opressão: pode alguém libertar-se da sua história pessoal?

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Agosto 1, 2013 por André Barata

Fotograma de "Uma história de violência", de David Cronenberg

Fotograma de “Uma história de violência”, de David Cronenberg

O filme de David Cronenberg Uma História de Violência (2005) põe a nu a força formidável que liga ao presente o passado, mau grado todos os esforços de libertação. À pergunta “Pode alguém libertar-se da sua história pessoal?”, ou seja, à pergunta sobre se pode alguém, sem desarticular-se num distúrbio esquizoide, esquecer o seu passado, Cronenberg responde com uma apresentação da explosão de violência que o continuum temporal traz a quem o desrespeita. Também assim se revela o motivo libertador dos disparos contra os relógios das praças públicas  na Revolução de Julho de 1830.

Além da temporalidade incessante e ininterrupta, vem agora a propósito Nietzsche chamar a atenção para um segundo facto genealógico, que se torna particularmente relevante na história de violência de Tom Stall, a personagem central do filme de Cronenberg. Tal como as leis da natureza, para David Hume, teriam de ter por condição um princípio de uniformidade da natureza, ele mesmo indemonstrável, também as leis da moral, com todo o seu léxico, para Nietzsche só puderam constituir-se sobre a conformação do humano à sua própria uniformidade.

Foi o próprio homem que teve que se tornar a si mesmo, enquanto representação de si mesmo, previsível, regular, necessário, para finalmente poder, como faz aquele que promete, responder por si e pelos seus actos enquanto futuro! (….) Aí reside precisamente a longa história da proveniência da responsabilidade. (Genealogia da Moral, 61)

Não bastava, pois, a continuidade que agarra sempre ao presente a memória do passado. Era necessário ainda que o futuro se tornasse uma previsibilidade para o presente, o que é uma outra forma de agarrar o tempo ao presente. Tal como não há esquecimento relativamente ao passado, não há reinvenção relativamente ao futuro. As duas dimensões temporais são, contudo, reflexo uma da outra. Ao esquecer-se de si próprio, Tom Stall não esquece os factos do seu passado. Fundamentalmente, ele rompe com o quadro de previsibilidade, regularidade e necessidade que não escolheu. Ou seja: rompe com a condição de possibilidade da promessa, da responsabilidade e da própria moral, como assinalava Nietzsche. Quer isto dizer que Tom Stall deixa-nos no abismo da ausência de juízo de justiça? Pelo contrário, Uma História de Violência, apesar de toda a brutalidade, deixa um sentido, pelo menos, pelo qual prossegue a nossa capacidade de fazer justiça à personagem. Fazer-lhe justiça significa aqui reinscrever os seus actos no tempo interior comunitário. A redenção de Tom Stall escreve-se com os mesmos caracteres temporais com que a moral o submetia à opressão. Metafisicamente, nenhuma legitimidade conhecida se lhe pode sobrepor portanto. O facto de Tom Stall ter tido uma vida subsequente justa é a constatação de haver a possibilidade de um sacrifício do bem construído nessa vida subsequente, que não é só dele mas de uma família, mal que a acontecer nenhum mal passado terá como justificar. O presente de Tom é demasiado inocente para poder ser sacrificado, com justiça, em nome do passado culpado. A inocência extrema do presente iliba-o. Não dos factos outrora cometidos, mas da sua posição existencial passada.

Cabe-nos compreender que o tempo presente de Tom tem deveres para com a inocência dos filhos, da mulher, até desse outro homem que conseguiu interromper a regularidade e previsibilidade opressoras, homem que é o Tom para os seus familiares.

Este tempo presente que se obriga perante o mundo não é do Tom apenas, mas da comunidade toda. É um dever que não podemos trair, só podemos acompanhar, e que se reconcilia com a potência de metamorfose da liberdade. As pessoas podem transcender o seu passado como podem transcender a sua natureza. É isso que as faz pessoas livres.

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Max Beckmann, O artista na sociedade, 1922

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