Da violência da opressão: a suspensão da faculdade de esquecer

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Agosto 1, 2013 por André Barata

Sem Título

Nietzsche identificou bem a transformação das subjectividades que tornou possível a constituição da História como continuum imparável que nada perde, tudo conserva, em estado o mais acessível possível, garantias necessária para fazer do tempo a matriz do cálculo de toda a espécie de juro, sobre toda a espécie de dívida, desde as de valor pecuniário aos “desvalores” do favor a cobrar mais tarde, passando pelas culpas e pelos  perdões, e não menos pelas “contas” dos afectos.

Este animal para quem o esquecimento é não só uma necessidade, mas também uma força, uma forma de saúde e de vigor, acabou por criar e alimentar dentro de si uma faculdade de sentido inverso, a memória, com a ajuda da qual, em certas situações, o esquecimento é suspenso: a saber nos casos em que se trata de prometer.(Genealogia da Moral, 68)

A faculdade humana de esquecer terá, pois, sido suspensa, suplantada, pela invenção da memória, faculdade humana “de sentido inverso”. Mas, isto que Nietzsche constatou, na representação que as subjectividades fazem de si próprias, apenas antecipa, em um século e meio, a transformação que, objectivamente, hoje culmina no modo “em rede” em que toda a humanidade tende a estar capturada. As redes sociais foram a invenção tecnológica que permitiu a industrialização das nossas relações com o tempo, última matéria prima a explorar como se fosse minério humano. Martelam-se acontecimentos brutos no formato de eventos, afeiçoam-se biografias a timelines, forja-se uma História inteira dentro da rede social. Esta nova faculdade, que é não esquecer, globalizou-se com as redes sociais, assegurando à sequência do tempo vivido um encadeamento contínuo inquebrável. Não um num sentido em que fosse como uma corrente de rio única e pujante, mas um como uma infiltração de incontáveis timelines contínuas a se enredarem numa coerência universal para que contribuem até os mais ínfimos estados de alma. Há nisto qualquer coisa do aforismo L’anarchie c’est l’ordre de Proudhon e também da crítica ao poder imenso que a ordem emergente se constitui. Doravante, o prometer de que fala Nietzsche é uma promessa totalitária.

Se algo há de opressivo nas redes sociais não é apenas, nem fundamentalmente, o facto de a intimidade ficar mais exposta, ou tornarmo-nos menos inexpugnáveis ao olhar dos outros. Isso seria beber de um representação que faz crer que, dentro na intimidade, não haveria opressão como há fora da intimidade. Pelo contrário, dentro e fora da intimidade, o regime da opressão é o mesmo e escreve-se com caracteres temporais. O que devemos perseguir é identificar que regime é este que se repete em todos os aspectos da vida, sejam ou não íntimos, digam respeito ao trabalho ou ao ócio, perceber os meios da sua implementação e também os da sua crítica interna.

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Max Beckmann, O artista na sociedade, 1922

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