Da violência da opressão: a diferença ontológica

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Julho 24, 2013 por André Barata

La Liberté guidant le peuple, le 28 juillet 1830 - Eugène Delacroix (Pormenor)

La Liberté guidant le peuple, le 28 juillet 1830 – Eugène Delacroix (Pormenor)

Na opressão, há uma violência sem corpo a corpo, na verdade sem corpo nenhum. A força opressora não atinge o corpo concreto das pessoas, pelo menos directamente como sucede com a repressão. A violência que oprime atinge primeiro as possibilidades de ser dessas pessoas. Por exemplo, ao viverem apenas para sobreviver ao dia seguinte, quer dizer, viverem sem projecto, viverem sem a possibilidade de projectarem uma vida com significado. A precariedade extrema tem como consequência central uma opressão igualmente extrema.

Joga-se nesta diferença entre a opressão e a repressão uma variação do tema da diferença ontológica, entre o ser (das Sein) e os entes (das Seiende), de Heidegger. A minha hipótese é que a repressão é o aspecto ôntico de um tipo de violência que tem o seu fundo ontológico na opressão. É conhecido o tema heideggeriano do esquecimento do ser. No entender do filósofo alemão, toda a metafísica terá sido uma história do esquecimento do ser. Ora, com a violência pode dizer-se algo semelhante: a história da violência contém um esquecimento da sua modalidade opressiva.
J. Harvey em Civilized Oppression (1999) refere-se a “formas menos óbvias de violência” e o seu objectivo de as tornar mais reconhecíveis. Zizek fala antes de uma imperceptibilidade. Ao contrário da violência subjectiva, de sujeito a sujeito, seja de corpo a corpo, seja de consciência a consciência, que «é experimentada contra o pano de fundo de um grau zero de não-violência», a violência objectiva, que é «a violência inerente a este estado de coisas “normal”» (Zizek, Violência, p. 10), é uma violência invisível. Contudo, a opressão violenta a possibilidade de sentido da vida humana, a significação aberta da existência humana, os reenvios que relacionam o passado, o presente e o futuro numa existência projectiva, por que se molda uma temporalidade própria. Cada um de nós, se não fôssemos oprimidos, constituiria uma maneira própria de ser a sua temporalidade.

Talvez por isso a primeira coisa que gente oprimida faz quando conquista, mesmo que por instantes, a liberdade é redimir a sua  própria temporalidade recuperando o seu domínio. Por que razão quiseram os oprimidos parar o tempo – arrêter le jour! –  na Revolução de Julho, em 1830? Por que disparavam em diferentes bairros de Paris contra os relógios públicos nas torres, como descreve Walter Benjamin na sua 15ª tese sobre o conceito de História? Antes disso, por que importou realmente aos revolucionários franceses reinventar o calendário? Em suma, como afirma Benjamin, por que importava aos revolucionários, no momento da acção, fazer explodir o continuum da História? A resposta é clara: Na verdade, esse é o continuum sem o qual seria impossível elaborar um conceito de dívida, crédito, juro, mancha, culpa e perdão. Precisamente, a elaboração da opressão.

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Max Beckmann, O artista na sociedade, 1922

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