Lutar por mais Estado social será suficientemente comunitário?

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Julho 17, 2013 por André Barata

Max Beckmann, Birdplay, 1949, Jill Newhouse Gallery

Max Beckmann, Birdplay, 1949, Jill Newhouse Gallery

Lutar por mais Estado social é lutar por mais capacidade da sociedade se fazer comunidade. O que quer isso dizer – «fazer comunidade»? É uma sociedade, ou um segmento dela, produzir um modo de organização dos aspectos comuns das suas vidas em sociedade. A mesma sociedade pode fazer-se comunidade de maneiras muito diferentes. Mas pode também não fazer-se comunidade, torná-la involuída, até impedi-la. É o que sucede com a imposição hegemónica da lei do mercado como lógica exclusiva da vida comum. No capitalismo em estado puro, as sociedades não se comunitarizam, são apenas um conjunto de indivíduos num espaço igual a qualquer outro, submetidos a um certo regime de comunicação e troca de bens. A globalização ilustra o ponto. As cidades tornam-se cada vez mais parecidas, como se fossem subúrbios umas das outras, não importa se localizadas mais próximo da linha do Equador ou se de um círculo polar, todas as necessidades e todas as escolhas tornam-se cada vez mais iguais. As próprias leis de cada país tendem, cada uma, a encontrar formulação que a torne funcionalmente equivalente à do outro país. Em suma: o capitalismo é, além de um esquema de exploração, um dispositivo de descomunitarização da sociedade. A cultura ainda resiste, implicando as tradições e o passado comunitário. Mas resistir aqui significa tão só ir sustendo o avanço da hegemonia sobre as diferenças. Até certo ponto, pode nem sequer ser resistência, mas reacção. E não restam dúvidas sobre a existência de uma crítica comunitarista ao capitalismo que é de natureza reaccionária.

Lutar por mais Estado social é devolver protagonismo ao impulso comunitário das sociedades, mas por um caminho bem diferente. É a sociedade persistir, por escolha própria, num quadro de transformação social e de maior liberdade, ou seja, num quadro de progressismo e de futuro aberto. Isso pode fazer-se de muitas maneiras – há tantos tipos de estados sociais quanto países com estados sociais -, mas em todas elas tem de estar em movimento a capacidade de invenção de lógicas novas de acudirmos e resolvermos as necessidades da sociedade, de as debater e experimentar, e de assim se pôr em prática um modo de co-existência que projectamos como mais libertador do potencial de realização humana de todos os cidadãos.

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Max Beckmann, O artista na sociedade, 1922

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